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Danças Etéreas





Danças Etéreas com Sophia





DANÇAS ETÉREAS

Crónicas, poesia... insónias em busca de sabedoria! Blog escrito por mentes que dançam e sensibilidades que balançam pelo mistério do tão omnipresente etéreo!





   

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Jul 20, 2004
Silêncio

Não são as palavras caladas
que fazem o silencio
pois ainda que as cales
ressoam inevitáveis
como um estrondo que optasses abafar dentro de ti
o silencio como o sabemos é mera fantasia
o menor murmúrio que possas ouvir na quietude do teu quarto
é o rumor que transporta consigo um eco
de vida frenética que corre desimpedida
e faz questão de to mostrar
silencio não são estas palavras
basta que nelas pouses o olhar
para gerar um encadeamento de ideias que terá de se manifestar
silencio é o que sou incapaz de pronunciar
e que deixaria de o ser nesses instante
o verdadeiro silencio
é aquilo que os nossos pensamentos ignoram ainda

o verdadeiro silencio, podemos ser nós

Posted at 03:48 pm by Agape
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Jun 26, 2004
enfado

as horas, as demoras
as esperas, as meras velocidades do mundo moderno
não seguem o ritmo da minha corrente...
aborreço-me facilmente....
pesam-me as vistas, peso os dias
na balança do sono que se instala em mim
pálpebras pesadas....
trilhos repisados, vida entediada...

Posted at 04:03 pm by nokturn3
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Apr 30, 2004
um rasgo de um poema de Florbela Espanca

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
           Que reúne num verso a imensidade!
    Sonho que um verso meu tem claridade
       Para encher todo o mundo! E que deleita
           Mesmo aqueles que morrem de saudade!
           Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Posted at 02:12 pm by nokturn3
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Apr 17, 2004
Abate

Se ao menos eu pudesse levar o caos,
Se pudesse levar a mão ao bolso
e sentir na minha mão luz que se carregue
sem sentir que sou carreira de naus
a pairar num oceano de treva,
ou sentir que sou desafinada harpa
ou contrabaixo de afinação não habitual
ou banda cósmica, ou estrela que enerva.
Se pudesse levar caos na mão,
Se pudesse levar leve luz no bolso,
Ter-me-ia por certo certezas
Tendo contudo ainda o privilégio de surpresas?
Esculpi máscaras ancestrais para cobrir
Máscaras que cobriam faces obscuras
Pintei chamas em arvoredos medonhos
para pensar melhor no porvir,
Entretanto desenhei mistérios
e servi de fonte de água salgada
que me desagua em baptistérios
para dar à minha noite cara lavada,
suja da máscara que para ela esculpi. 




Posted at 08:44 am by nokturn3
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Apr 10, 2004
algo que me disseram há muito e ainda hoje me faz pensar...

Numa tarde perdida no tempo da memória, com um irmão que da vida já de mim me foi levado...
 Quis o destino que assim fosse mas há coisas que perduram, vozes, palavras e amizade que por vezes me serve de vela quando caminho em caminhos sem sóis nem luas. Esta ficou-me na memória não sei se a frase era de autoria dele mas que importa.....
  Lembrei-me porque aproxima-se mais uma data comemorativa e em todas as datas em que se comemoram actos comemoram-se as pessoas que os cometeram, e vêm as homenagens....
 O que me foi dito foi o seguinte:
"Quem faz homenagens homenageia-se a si mesmo".

Posted at 11:04 am by nokturn3
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Apr 8, 2004
Companheira


      



quando, na tarde lírica dos campos
no éden minusculo da horta
descobri nos teus lábios figos lampos
e me olhaste, um momento adulta e absorta

menina companheira de um menino
olhei os limoõezinhos dos teus seios
sem tocá-los. Depois quis o destino
que víssemos um burro... e adeus, enleios

mas as cenas de galos e galinhas
cada vez mais nos iam intrigando
e vinham donde, as novas bezerrinhas?
disfarçavam, sorrindo, e nós corando...

corando do mistério, do sorriso
de serpente do mundo tão corrupto
que deturpou o nosso paraíso
onde o teu corpo era só mais um fruto


Leonel Neves (in Natural do Algarve)





Posted at 04:04 pm by Agape
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Mar 30, 2004
!!





como te esperei, noite
durante este dia
no pleno do teu silêncio
estendi o meu leito
mais uma vez no aconchego do teu peito
sangro saudades por uma caneta
azul como a luz da lua agora ausente
sei-a lá fora mas não a sinto presente
como esperei, noite
que hoje o teu sabor fosse diferente
talvez amanhã, não o sei
talvez amanhã venhas mais quente
talvez amanhã, mas não o sei


(photo: Miguel Neves)

Posted at 02:26 pm by Agape
Comments (2)

Mar 25, 2004
verde? VERDE!!





Bom homem que te sentas à minha frente, nos bancos verdes desta carruagem cinzenta, sempre cinzenta. Verde é também a cor nos corações de quem aqui segue todas as manhãs. O verde nos bancos está esbatido com o suceder dos dias iguais, como o verde nos corações deles.
O verde é a cor de tudo o que floresce, das coisas que crescem verticais na direcção do céu, e por isso é a cor da esperança, que agora não passa de uma ideia gasta, um sentimento latente mas ténue, desbotado como o verde nos bancos da carruagem, esbatido como o verde nos corações dos trabalhadores da manhã.
Bom homem que te sentas à minha frente... adivinho a tua idade nas rugas que te sulcam a face, como se o tempo nos cobrasse dessa forma cada ano de sabedoria que só a idade nos pode dar, em troca do próprio corpo, que vemos ser consumido devagar.
A vagareza dos gestos denuncia em ti um cansaço de rotinas, ou uma tranquilidade de quem sabe que não tem de correr. E esse olhar que se projecta do mais profundo de ti até bem para fora desta carruagem cinzenta diz-me que não pertences a este espaço, que ainda lutas contra a proximidade relativa da tua sepultura com um verde forte e calmo de coração.
Pousas os olhos no livro de Saramago que não chegas a abrir porque te pesam as pálpebras, e eu olho para o verde autêntico da floresta que se estende para além da linha, olho pra fora desta carruagem cinzenta.

Posted at 11:20 am by Agape
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Mar 24, 2004
Quem dera




   quem dera
   que estas palavras fossem sentidas por ti
   como que ouvidas do fundo da tua alma
   e percebesses nelas um eco de coisas por dizer
   quem dera
   bastasse um toque na tua pele
   e entrasses na minha alma, quem dera
   não nos limitaria o espaço
   teriamos vencido o tempo
   seriamos iguais ao vento
   quem dera ver-te agora
   ter-te agora numa hora
   por todas as horas, quem dera
   sentir as tuas mãos quentes e febris
   de esperança e sonho
   o teu amor é a luz reprimida nos corações dos homens
   o teu amor é a luz que libertei em mim
   quem dera
   levasse o vento até terras distantes onde estás
   este impulso solitário
   como se completado por uma cálida presença
   tua
   quem dera
  





Posted at 11:27 am by Agape
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Mar 22, 2004
Leonel Neves

Tenho de partilhar isto com todos, sinto-o como um dever que cumpro com alegria. Porque a poesia vive em todos nós, está no povo e não exclusivamente nas elites, nas obras globalmente conceituadas... com alegria porque assim vos deixo um testemunho e um vislumbre da nossa alma secreta, talvez não só enquanto portugueses...! Leonel Neves sonhava com o mar desde os tempos de criança. Não entrou na escola naval porque alegadamente, não tinha peso suficiente, "se lhe tivessem pesado a sensibilidade e o carácter teria chegado a almirante"!
Frustrado, segue matemática, e mais tarde faz a licenciatura de engenheiro geografo.
Ao contrario do que talvez se pudesse esperar, as ciencias exactas não lhe suprimiram o sonho.
Leonel Neves deixou esta vida em 1996, mas continuará vivo na memoria daqueles que o lembram, nas lembranças ternas e candidas da sua esposa ainda conosco; no coração dos filhos e netos; na poesia que agora espalho no ar... um eco de Leonel Neves que aqui se prolonga...






Segundo bar

Hoje que o teu olhar absorto e longe
feriu a moral calma dos vizinhos
hoje que a tua carne honesta e ciosa
içou as mesmas flâmulas impúdicas
que moraram nos olhos da menina
envergonhada e adulta só de ver-te
hoje que aquele moço triste e bom
que escuta a seiva a murmurar nas ervas
passou sem pressentir o que sonhavas
hoje que perdes com receio da morte
o tempo exacto de pintar as unhas
hoje que quando vieres onde estou
ao ver-te nos meus olhos hás-de amar-te
mas sem pensar quem és e como és
hoje que sinto um nojo tão profundo
de mim que sei tudo isto e sei a vida
parado à espera que a vida mude
hoje é que eu queria ser pré-suicida
vagabundo ou viúvo inconsolável
ver o copo de vinho que tu és
e precisar de ti

Mas somos vida e vida tão efémera
que vou esquecer tudo e vou beijar-te
com a cegueira voluntária de um poeta
e hei de perdoar-me por saber mentir-te
tal como Cristo por amor aos homens

...

(mais poemas de Leonel Neves serão publicados neste blog)

Posted at 04:18 pm by Agape
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